Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

…Pensa na voz alto…


Imagem: Gilbert & George

Estou um pouco confuso, confesso. Em tempo de campanha eleitoral parece que tudo é fácil. Parece que todos os sonhos são possíveis de se concretizar. Esbanjam-se promessas e distribuem-se beijos e abraços. Os mais desinibidos arriscam-se mesmo a misturar-se com a multidão em vibrantes pulos. De entre as muitas conclusões que se pode tirar: os candidatos foram todos inscritos num curso intensivo de “mentirite criativa”, noutro de “saltos contínuos”, noutro de “como aguentar por maior tempo possível o abraço de um popular”, noutro de “estratégias de boicote à campanha eleitoral adversária”, noutro de “como desconversar”, noutro de “conheça a importância de usar uma T-Shirt Polo”, noutro de “cobaduras fedi si”, noutro de “como tornar-se num bocabedjo, caradipau ou malabarista”, noutro de “como dar trabalho à CNE e desviar atenções” noutro de “como parecer um tipo sério e interessado”. Dizem as más-línguas que somente o candidato da UCID na Praia se inscreveu na “como a inocência pode te ajudar a manter a moral em alta”.
Outra nota sonante destas campanhas é o fanatismo partidário. Indiferentes às propostas eleitorais, estão por todos os lados, em todos os comícios, carregam bandeiras, abanam os braços durante duas ou três horas incansavelmente, vestem 24h a t-shirt com a cara do candidato da sua cor, gritam vivas e abaixos e são absolutamente incapazes de ter uma conversa lúcida e coerente sem meter a mãe do outro no meio. A um outro nível, encontramos os estudantes e quadros superiores, aspirantes ao estatuto de pessoas sérias dentro dos partidos. Estes menos exuberantes, nem por isso menos eufóricos, fazem a campanha em casa, nos bares, restaurantes, nos encontros especialmente arranjados para tal. Sempre que possível sobem aos palanques e fazem parte da composição/cenário de acolhimento aos discursos principais. O maior argumento é “andei por todos o lado como o fulano de tal e há uma grande aderência, um sentimento de vitória” ou “li/lá dja nu ganha dja”, a qualquer contra argumentação lançam “tem certus cusas ki bu ka sabi”. Do género: “estou directamente em contacto com a cúpula do meu partido e tenho certas informações que não tens”. Ok, entendi.
Normalmente, mandam as boas regras da democracia dizer que não existem vitórias antecipadas e tal. Tudo bem, mas principalmente nos dois grandes partidos, existem candidaturas que à partida serão vitoriosas em certas câmaras municipais. Escrevo tal coisa para sublinhar o espírito de sacrifício de certos cordeiros, pessoas que por generosidade, “gana parsi” ou pura ingenuidade politica apresentam-se às eleições para fazer figura e prestar serviço ao partido. Claro que tudo vai ser recompensado a seu devido tempo, mas não deixa de ser irónico notar isso.
Últimas notas: urgente ao PAICV relembrar às suas bases quais os ideais do partido, abrir dentro do partido caminhos democráticos para ascensão de jovens ao poder, caso contrário as campanhas eleitorais continuarão a ser os únicos mecanismos de demonstração de serviço. Necessário construir outras formas de carreiras dentro do partido. Necessário alertar aos seus militantes que a arrogância e confiança excessiva pode ser traiçoeiro. Por outro lado, urge que o MPD deixe de ser apenas um movimento e passe a ser um partido de facto, a denúncia pela denúncia cansa e é pouco produtivo. Por outro lado é espantoso como figuras relevantes dentro do partido se escondem em período eleitoral deixando que os mesmo de sempre se queimem, fazendo com que o discurso não se renove. É óbvio que Carlos Veiga, Jorge Carlos Fonseca são mais valias, mas onde estão novas cabeças, novos motores que possam garantir daqui a uns anos novas opções. UCID é sempre bom ter uma terceira força politica…mas somente quando essa tenha força, eu não vou naquele velho e gasto slogam: o que vale é a participação.
Com carinho daqui de fora, um badiu odju ragaladu.